Curso de agronegócio leva desenvolvimento ao Sertão

Estudo, somado a agropecuária tradicional, forma a equação promissora de soluções para a convivência no Semiárido

Curso de Agronegócio

Juru é um município típico do Alto Sertão paraibano, com não mais de 10 mil habitantes. O maior fluxo de movimento inicia na Igreja de Santa Terezinha do menino Jesus e desce pela avenida principal, cortada por um largo canteiro com jardins bem cuidados e bancos que acolhem os moradores nos finais de tarde. Vai até fundir com a PB-306, que leva a Tavares, quase divisa com Pernambuco. Este cenário, conservado na memória do juruense Jean Francisco Pereira Gama, permanecia praticamente inalterado quando ele retornou ao município 11 anos depois de sair para estudar. A novidade ele trazia consigo, a perspectiva de difundir ali as técnicas de agronegócio – somadas ao conhecimento da agropecuária tradicional, forma a equação promissora de soluções para a convivência no Semiárido.

No ano passado, em 2019, a Escola Estadual Cidadã Integral (ECI) Arlinda Pessoa da Silva, em Juru, incorporou a modalidade de ensino técnico e passou a oferecer aos estudantes de Ensino Médio o Curso Técnico em Agronegócio. Ao primeiro anúncio de transição, pais e estudantes relutaram: “Isso é coisa de roça. Não vou estudar pra pegar enxada”.

A rejeição deixou Jean Gama apreensivo, mas não o assustou; ele seria o coordenador do Curso Técnico em Agronegócio. Zootecnista, técnico extensionista, pesquisador, consultor e empreendedor, Jean estava às portas de iniciar um novo desafio em sua carreira, a de professor. Depois de estudar e trabalhar em diversos estados brasileiros ele retorna à terra natal com o propósito de compartilhar sua experiência. Sua segurança vinha da certeza de que os conceitos de agronegócio e sustentabilidade, adaptados à realidade local, deveriam transformar a primeira impressão da comunidade. Foi o que aconteceu. Um mês de aula foi suficiente para descortinar as oportunidades do agronegócio aos estudantes; bastou saberem que o conhecimento estava além da roça e da enxada.

“Havia demanda na região por conhecimentos nesta área para a utilização de recursos naturais do Semiárido. Aqui há muitas plantações de batata doce e maracujá. O agronegócio é muito mais do que se entende pela mídia; agricultura familiar também é agronegócio.”

“Quando se discute agricultura em termos de Brasil fazemos projeções visando o Nordeste como uma futura potência na agricultura mundial. Temos o sol o ano inteiro, temos a água – não distribuída equitativamente, mas o semiárido brasileiro possui maiores índices de chuva no mundo, com média de até 800 milímetros por ano. O problema é que estamos perdendo em tecnologia e pesquisa. Sabemos que em países como Israel, onde o bioma é bem mais severo que o nosso, há soluções em tecnologia que temos plena capacidade de adaptar para nossa região. O desafio na ECIT Arlinda Pessoa da Silva é levar esse entendimento para o aluno e para a comunidade”, argumentou Jean Gama.

As primeiras aulas de 2019 foram expositivas e preparatórias. Logo em seguida, os estudantes se surpreenderam com visitas de profissionais em agronegócio, especialistas, agricultores, interagindo na escola. “Essa troca de experiências foi uma das ações que trouxe um retorno muito positivo entre os alunos”, disse Jean. Outra atividade culminou em uma viagem a Cabaceiras, para visita aos produtores do sítio Umburana, onde se aplica técnicas de agronegócio. As quatro estudantes contempladas com a viagem se encarregaram de transmitir o aprendizado aos colegas.

Parceria com o Insa – Entre os especialista que estiveram na escola, a visita dos pesquisadores do Instituto Nacional do Semiárido (Insa), Geovergue Rodrigo de Medeiros e George Vieira superou as expectativas. Ainda contando com o apoio de pesquisadora Jucilene Araújo, também do Insa, o instituto foi parceiro na organização do I AGROECIT e a I Jornada de Minicursos com o tema “Semiárido Produtivo: convivendo com a inteligência”, um evento realizado em 30 de outubro, promovido em pela escola, para estudantes e aberto para agricultores e parceiros de toda a região.

Além do aprendizado, destacou-se o empenho dos colegas do 2º e 3º anos na preparação do evento. “Eles fazem parte das últimas turmas antes de implementarmos o Ensino Médio técnico. Eles não têm as mesmas disciplinas que nós, mas estudam conforme a pedagogia das Escolas Cidadãs Integrais, cujo principal foco é o protagonismo”, explicou Jean Gama.

“Pesquisadores de várias áreas do Insa foram para o AGROECIT e testemunhamos o sucesso”, disse Geovergue Medeiros. “Abordamos temas como produção animal, agricultura familiar, irrigação, sistemas de recursos hídricos, desertificação, entre outros. A partir disso, vimos a necessidade de formularmos uma parceria oficial com a escola, pois é necessário, principalmente, fazer pesquisas com a água, precisamos saber o grau de salinidade para tornar possível a irrigação.”

A parceria com o Insa rendeu mais frutos. Em março deste ano a Ecit Arlinda Pessoa da Silva e o Insa firmaram um Acordo de Cooperação Técnico-Científica “para a promoção de trabalhos de pesquisa, desenvolvimento, inovação, formação, disponibilização de recursos humanos, compartilhamento de laboratórios e articulação institucional, visando à geração e transferência de tecnologias e informações que promovam o desenvolvimento econômico, social e ambiental do Semiárido Brasileiro”.

O diretor da escola, Miguel Alves da Silva, ressaltou que se não fosse pelo afastamento social provocado pela pandemia, “estaríamos bem mais aprofundados no projeto e na parceria com o Insa”. Ainda assim, os esforços seguem com o Regime Especial de Ensino  para formar bons técnicos em agronegócios, um conhecimento adquirido na juventude que faz diferença hoje e fará num futuro próximo.

O Instituto Nacional do Semiárido (Insa) é a única unidade de pesquisa no Brasil com enfoque unicamente no Semiárido brasileiro. É integrante do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), realiza pesquisas, ações de difusão tecnológica, acima de tudo, busca ser um agente de transformação social, tecnológica, para o Semiárido brasileiro.

Semiárido tem potencialidade econômica, diz especialista

Geovergue Medeiros, coordenador do Núcleo de Produção Animal no Insa, lembrou do retrato o Nordeste na mídia da década de 1980. Ele citou uma reportagem da revista Veja que marcou-lhe a juventude, carregada de iconografia da seca, da morte, do flagelo.  Precisamente, a edição do dia 18 de março de 1981, trouxe a reportagem de capa assinada por Marcos Sá Correa, “Os sertões do nordeste morrem de sede”. Uma das matérias revelava no título:  “Tentando vencer a maldição do dinheiro perdido – Não é só a seca que assusta o nordeste – mas a imagem de região sem futuro, onde é inútil investir”.

O governo federal considerava “um mau negócio aplicar no nordeste”; e empresários “acreditavam achar muito melhor o governo aplicar em regiões desenvolvidas, triplicar o investimento e, com as sobras, ajudar o nordeste”. Isso nas palavras do então governador Tarcísio Burity, que disse ouvir tais alegações de empresários nordestinos.

“O Semiárido era visto como a região pobre, de retirantes, onde há seca, vegetação espinhosa e nenhum potencial econômico. Essa é uma visão totalmente distorcida”, diz Geovergue. “Aprendemos com a vegetação da caatinga a rica diversidade de plantas com potencial para a produção de fármacos, cosméticos, defensivos e alimentos, tanto para humanos quanto para animais; pecuária caprina e bovina, criação de pequenos animais, como abelhas, produção de frutas – atividades econômicas que promovem o desenvolvimento. E não podemos esquecer que, onde falta água, sobra luz, fonte de energia renovável”.

Para o pesquisador, há desafios a serem alcançados como o desenvolvimento de políticas públicas direcionadas, melhorias do nível de educação contextualizada da população; a redução de impactos ambientais, o que provoca a desertificação e a necessidade de recuperar áreas degradadas. E ainda, melhorar a qualidade da água de consumo humano. As ações integradas de ONGs, governos, instituições de ensino e pesquisa, iniciativa privada, devem estar voltadas para desenvolver a pesquisa, o emprego de tecnologias, a inovação, a formação, difusão e construção do conhecimento para o desenvolvimento sustentável no Semiárido.

Estudantes identificam oportunidades de transformação

Hoje no segundo ano do Ensino Médio, os estudantes da ECIT Arlinda Pessoa da Silva se apropriaram do conhecimento em agronegócio e identificam possibilidades de melhorar as atividades rurais executadas pelos familiares. Eles ainda encontram barreiras na tradição das técnicas antigas, transmitidas por antepassados, e procuram conciliar a tecnologia ao conhecimento tradicional.

 Gabriel Domingos Batista, 18 anos

“A agricultura familiar é uma das principais fontes de renda na nossa região, por isso o agronegócio é tão importante. Quando nos aprofundamos no curso vemos quantas oportunidades temos, principalmente porque podemos permanecer trabalhando aqui. Eu pensava que agricultura era cavar um buraco na terra, colocar a semente e tapar. É muito mais, envolve adubação, nutrientes; todo o processo de cultivo do começo ao fim da colheita; administração, uma boa gestão; anotação das perdas e o que se pode melhorar no próximo plantio. Os agricultores aqui não aplicam isso, mas vemos que, se aplicassem, a produção poderia ser maior.”

Beatriz de Souza Lopes – 16 anos

“Eu moro na zona rural, cerca de 18 km de Juru. Quando soube deste curso me retraí. Não queria fazê-lo. Um mês depois, mudei minhas impressões quando percebi a real importância do agronegócio. Vai além do que eu imaginava. O que mais me atraiu foram as aulas práticas, as palestras de profissionais e o AGROECIT. Aprendi técnicas agrícolas que melhorariam a produção de milho e feijão do meu pai; apresentei a ele as novidades, mas ele disse que trabalha como seus pais trabalhavam. Eu quero mostrar a ele na prática. O importante é que ele me apoia e reconhece a importância da escola.”

Kathleen Leite Marcolino Gomes – 17 anos

“Eu sabia que seria um curso que viria para mudar muita coisa, abrir a mente das pessoas e ver a agricultura de um jeito diferente. Isso porque eu busquei informações sobre o curso, antes de começar. Mas superou as minhas expectativas. É uma área que abrange tecnologia, empreendedorismo, administração. Eu quero me formar em medicina veterinária e vejo que o que eu aprendo aqui está relacionado à profissão. O AGROECIT foi um evento que eu nunca imaginei que fosse realizar, nem participar! Foi impressionante. Pude ver que todos podem trabalhar juntos e aprender mais com a prática.”

 Luana Pereira Alves 16 anos

Praticamente toda a minha família trabalha no campo. Depois que as aulas começaram vi que tem uma infinidade de coisas que precisa fazer na atividade agrícola e também observei que os agricultores aqui não usam. Preferem fazer o que aprenderam com os antepassados. Se aplicassem, a produção seria muito mais vasta; em relação ao período chuvoso e a seca, muitas pessoas perdem produção, o que poderia ser evitado. Aprendemos o que pode minimizar a perda, como o plantio direto. É comum aqui queimar o solo para plantar; mas se deitar a folha do milho no solo, por exemplo, quando chover essa folha vai dificultar a evaporação da água e água é o bem mais precioso para a agricultura.

Fonte: Márcia Dementshuk/Jornal A União

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